Aurora – a evolução iluminada de Felipe Folgosi

Aurora – a evolução iluminada de Felipe Folgosi

Aurora é um quadrinho de ficção científica que nasceu da mente de uma pessoa de feições familiares e aporta nas prateleiras das bancas e comic shops como um sinal de que existe espaço para muito mais nos quadrinhos feitos no Brasil.

 

Se tem uma coisa que 2015 fez por mim foi dar a chance de mergulhar no mercado nacional de quadrinhos. Além de ter conhecido pessoas muito legais eu também comecei a consumir as produções nacionais, que tem coisas maravilhosas. No dia do Ugra Fest, que aconteceu no início de Outubro do ano passado, eu fiquei completamente impressionada com a quantidade de artistas na ativa. É um verdadeiro babyboom de criatividade e tem muita gente produzindo coisas lindíssimas e desafiadoras.

No entanto a cena independente já está flertando há alguns anos com a cultura de massa brasileira. Basta ver os esforços do Maurício de Souza em trazer novos artistas através das MSPs para a única franquia de quadrinhos que é 100% brasileira e se mantém firme e forte no mercado, A Turma da Mônica. O gibi sobre o qual eu vou falar hoje também tem relação com a cultura de massas, mais especificamente as novelas. O autor se tornou conhecido através do formato e fez o caminho contrário da maioria das pessoas: utilizou a sua oportunidade de estudar cinema fora do Brasil para materializar uma de suas ideias através da sua paixão por quadrinhos.

felipe folgosi aurora autor hq

Fiquei surpresa ao criar a relação cara-crachá do autor de Aurora: conhecido em todo o Brasil pelo seu trabalho como ator em novelas – na maior parte das vezes como galã nos anos 90 – e participante de reality show, o Felipe Folgosi é uma brisa de alívio em meio as novas gerações classe artística do país que assume livremente que não gosta de leitura, sem ter nenhuma vergonha. É maravilhoso ler no prefácio do quadrinho que ele mastigou o sonho e as ideias desse roteiro por aproximadamente dez anos e nunca desistiu da ideia, além de ter se empenhado muito em pesquisas e estudos de como desenvolver o roteiro. Um artista multi facetado e que merece uma chance muito maior como roteirista e criador de histórias. Digo isso porque Aurora é fruto de uma inspiração de vivência pessoal somada a grandes referências dos quadrinhos sem ser piegas.

Referências transformadas em pegadas do universo

Ao contar a história do pescador Rafael, um português recém imigrado para os Estados Unidos, o enredo colide de uma maneira muito sutil com a realidade que estamos vivendo hoje, especialmente no ano de 2015. Ele é um novato na pescaria em alto mar e acaba sendo chacota de uma equipe experiente, até que ele se oferece para acender um sinalizador em meio a uma tempestade muito forte no mar. O que os tripulantes não sabiam é que se tratava tempestade cósmica em que a radiação atinge violentamente o português. Ele fica com marcas em seu corpo com o formato de uma galáxia e sua saúde fica completamente debilitada. A partir daí a corrida contra o tempo é inevitável, seja para salvar a sua vida de um violento câncer de pele ou para escapar das mãos do governo e de sociedades secretas que desejam apagar todos os rastros do fato e estudar a fundo o que aconteceu com o rapaz com fins excusos. É neste cenário em que uma eletrizante perseguição acontece enquanto Rafael se transforma em algo totalmente novo.

Trazendo para si grandes referências de transformações após acidentes radioativos como nas histórias do Homem Aranha, do Dr. Manhattan de Watchmen e especialmente da origem do Hulk, a história do pescador consegue unir essa referência clássica a grandes doses de astronomia, ficção científica, religião, teorias da conspiração e filosofia. Quem já tentou desenvolver quadrinhos sabe como é difícil fazer com que todas essas referências se amarrem de uma maneira crível para o leitor. É um universo relativamente complexo para uma história que se concluí em apenas um volume de 104 páginas.

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O cabo de guerra evolutivo

Aurora mostra o grande medo que a humanidade tem da evolução e como as nossas mentes são resistentes a mudanças. Não muito diferente do que acontece hoje, em 2016, ano que enfrentamos consequências graves do choque de um grande movimento progressista com o fundamentalismo religioso, o gibi mostra que tudo aquilo que não é conhecido tem uma grande tendência para sofrer perseguições e ser controlado e dominado para interesses próprios com fins de manipular o futuro.

Mas, acima de qualquer coisa, não existe guerra que vença a força do amor e Aurora mostra isso com clareza. Uma das últimas passagens do quadrinho emociona ao mostrar que é possível substituir a morte e o ódio com boas lembranças e transformar o seu meio em um lugar mais cheio de amor.

Um novo fôlego.

Um outro fato sobre Aurora que me deixou muito animada é que eu encontrei o exemplar na banca, assim como o segundo volume de 123 Fast Comix – que terá resenha em breve aqui – o que me faz pensar que existe uma luz no fim do túnel para autores independentes nacionais. Esses dois gibis foram financiados pelo Catarse e saber que eles estão chegando nas bancas do lado de casa só me dá uma sensação muito grande de esperança para o mercado nacional.

A HQ de 106 páginas desenhada belissimamente pelo Leno Carvalho foi lançada pelo Instituto HQ com financiamento coletivo via Catarse. Você pode saber mais sobre o projeto na fanpage do projeto e no hotsite do Catarse.

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