O show do The Dillinger Escape Plan em São Paulo foi a síntese do caos

Música
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A banda americana The Dillinger Escape Plan fez a sua estréia nos palcos brasileiros ontem na Clash Club e trouxe consigo uma das experiências mais imersivas e caóticas para fãs que vi até hoje nos palcos.

Conheci The Dillinger Escape Plan faz alguns anos através da fase obsessiva que tive pelos projetos paralelos do Mike Patton. O grupo, que está na ativa desde 1997 é do estado americano de New Jersey, teve o privilégio de contar com o vocalista do Faith No More em uma fase de transição da banda, lançando até mesmo o EP Irony Is a Dead Scene (2002), com algumas músicas cantadas por ele. Antes mesmo da passagem do cantor, o Dillinger já era muito experimental por natureza e tinha uma coisa louca que transitava em seu som muito além dos trilhos do seu rótulo principal, o mathcore, misturando jazz, bossa nova e outras vertentes do rock.

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Esse espírito caótico e passional da banda sempre atraiu involuntariamente a minha atenção, especialmente no que se diz respeito ao disco Ire Works, lançado em 2007. Escutei muito esse disco no ano passado e ele foi me levando aos outros discos, entre os preferidos o Miss Machine (2004) e o One Of Us Is The Killer (2013).

Quando a Liberation Tour anunciou o show na Clash Club eu nem parei pra pensar muito e comprei na lata os ingressos. Afinal de contas a banda nunca havia pisado em solo brasileiro antes e eu tô nessa vibe de me recusar a perder os shows das bandas que eu gosto, pelo menos enquanto houver algum resquício de esperança econômica no Brasil. Já perdi shows demais pra perder esse, sabendo que ficaria claramente chateada caso eu não fosse. Pois muito bem. Fui.

A banda de abertura: Test

A noite começou com uma interessante apresentação do Test como banda de abertura. A dupla paulistana faz um som poderoso apenas com guitarra e bateria. A auto denominação de black / death / grind cabe muito bem a banda, que tem a influência desses estilos muito claras. Foi interessante assisti-los antes do Dillinger pois eles fazem um som muito diferente da atração principal, sendo mais grave e brutal. Mas de alguma maneira o Test é alinhado com a caos dos caras do Dillinger e acabou se tornando algo curiosamente complementar. O público também curtiu muito.

O verdadeiro culto ao caos não precisa de disfarces para ser maravilhoso

A banda, como já era esperado, é completamente perturbadora e violenta da forma como todas as violências deveriam ser. Estamos na frente de um grupo que prefere a intensidade e a entrega de uma experiência inesquecível a quem está assistindo o show do que a perfeição. Tem coisa melhor do que um pouco de energia de verdade em um mundo cada vez mais falso como o nosso?

Claro que não.

O setlist da banda estava deliciosamente equilibrado, mesclando os sucessos mais populares da banda com a pancadaria tradicional, estridente e barulhenta da banda, repetindo a mesma ordem dos shows dos dias anteriores da América do Sul. Para mim os grandes destaques da noite foram Milk Lizard, onde o público simplesmente cantou a plenos pulmões, Panasonic Youth, em que muita gente deu stage dives maravilhosos ao som da banda afiadíssima, Room Full of Eyes, a performance mais insana de todas e a minha preferida e totalmente intensa Farewell, Monalisa.

O Greg Puciato dá umas desafinadas às vezes, mas é totalmente desculpável pela performance surreal e o desempenho físico que esse homem tem no palco. Poucas vezes vi algo parecido, especialmente pelo grupo ADORAR se entregar aos fãs sem medo das consequências. A escola Mike Patton de performance como vocalista tem um ótimo aluno aqui. Isso serve para o resto da banda, que se entrega nos shows e dispende uma energia absurda. É como se eles estivessem sempre fazendo o último show da vida. A bateria do Billy Rymer é muito intensa e até agora tô sentindo as pancadas. O membro mais de boa – teoricamente – seria o Liam Wilson, o baixista, que é mais focado no instrumento em si, mas não quer dizer que ele seja menos insano na hora de tocar.

Mas nem tudo são flores: achei a qualidade do som da casa insuficiente pra banda, muitas vezes ficava bastante embolado e não dava pra ouvir uma das coisas mais incríveis que acho que os caras tem pra oferecer no som, que são as camadas mais sutis e que dão uma atmosfera bem diferente ao trabalho deles. Aliás, vale dizer que, pelos relatos, o Greg quebrou um dos PAs da casa quando subiu para tentar pular na platéia. ¯\_(ツ)_/¯

A troca e delírio entre a banda e os fãs

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Quando você gosta o mínimo que seja de The Dillinger Escape Plan você sabe que, além da sonoridade, a banda prática fortemente o caos em suas apresentações. O público vai a loucura com a possibilidade de interagir com a banda, se jogar junto com o Greg Puciato do palco ou então segurar o Ben Weinman enquanto ele surfa pela platéia. Na Clash não foi diferente e com certeza o sonho de muitos dos fãs mais ardorosos foi realizado ali.

A Clash é um clube pequeno com uma ambientação muito interessante com suas luzes no teto. Especialmente para as atrações, mantiveram as luzes vermelhas para dar a densidade que o caos realmente merecia ali. Apesar de ser um espaço pequeno, a casa não lotou muito, mas isso não interferiu na insanidade do público durante toda a noite, muito pelo contrário. Essa proximidade deixou os espectadores, em sua maioria completamente totalmente fanáticos, mais ensandecido ainda.

A minha experiência

Eu fiquei até vesga de tão intenso que é o show dos caras
Eu fiquei até vesga de tão intenso que é o show dos caras

No fim, o que posso tirar da experiência como um todo é que, mesmo não sendo uma banda do meu top 10 e de ter ficado quietinha no meu canto por causa de uma eminente dor de estômago – afinal de contas o domingo de votação do impeachment me deixou completamente perturbada – a catarse de estar ali no meio daquele culto ao caos me fez me sentir em casa, como se eu sempre estivesse ali, ouvindo as músicas que me agradam e em meio a pessoas com a mesma loucura que a minha. Se uma banda, mesmo com a porradaria imensa do seu som, faz com que eu me sinta desafiada, livre e feliz, significa que ela está simplesmente fazendo certo.

Esperamos vocês de volta, The Dillinger Escape Plan.


Todas as fotos e vídeos deste post foram e gentilmente cedidas com pelo site OnStage. As imagens foram captadas por Flávio Santiago.

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