Gore é o disco mais incomodo do Deftones e é por isso que você tem que ouvir

Gore é o disco mais incomodo do Deftones e é por isso que você tem que ouvir

Deftones é provavelmente uma das bandas mais criativas de rock que sobreviveu ao mainstream de uma geração que se perdeu pelo tempo-espaço.

No disco lançado na última sexta-feira, Gore, a banda traz a tona as diversas influências externas que os anos de estrada trouxeram e mais do que nunca tira o conforto do ouvinte por desarmonizar propositalmente o que eles tem a oferecer.

Bom, escrever sobre Deftones deveria ser tão fácil quanto escrever sobre Faith no More pra mim. Mas não é. O Deftones está entre minhas bandas preferidas pelos nós no estômago e pela completa falta da racionalidade, não apenas pela sua história. É como se essa banda fosse capaz de resgatar tudo aquilo que existe de mais instintivo em mim, e por isso mesmo é viciante. Essas são as minhas duas preferidas e eu sou completamente alucinada por ambas, mas o Deftones é a que me acompanha a mais tempo. Desde a adolescência, essa banda, que é de Sacramento, na Califórnia (EUA), provavelmente é a campeã de repetições da playlist da minha vida. Me lembro demais de estar trabalhando na época da faculdade e de ouvir em looping todos os discos lançados até então, afinal de contas eles estiveram disponíveis no site da banda por muito tempo, completos para audição.

Deftones-Gore-Promocional

Apesar de ser uma banda do berço do nu metal dos anos 90, o Deftones sempre teve um grande diferencial em relação as outras. Uma atmosfera completamente experimental sempre dominou o som dos garotos, desde o Adrenaline. Todos os CDs tem uma sonoridade muito única, sendo aquele tipo de banda que você reconhece apenas por alguns riffs tocados pelo Stephen Carpenter ou pela voz inconfundível e sempre muito sexualmente evocativa do Chino Moreno. O que dizer da cozinha da banda, com o ritmo grooveado e sempre muito criativo do Abe Cunningham e da inestimável profundidade do baixo do Chi Cheng, o falecido baixista da banda que foi substituído pelo competente Sergio Vega. Para arrematar o som inconfundível, temos o Frank Delgado que cria cenários cheios de camadas com seus samples.

A eterna experimentação

Desde Like Linus, a primeira demo do grupo californiano, o Deftones sempre carregou um DNA cheio do nu metal que invadiu as rádios e TVs ocidentais e definitivamente marcaram uma geração inteira de adolescentes revoltados. Só que os adolescentes cresceram e amadureceram, assim como a banda. E isso é um privilégio de poucos artistas nascidos a sombra de uma etiqueta gigantesca. É um grande fardo para muitos outros grupos da mesma época.

No entanto, desde o começo anos 2000, mais especificamente no disco White Pony, é fácil ver como o Deftones se entregou as experimentações e uma grande parte responsável por isso foi a troca com outros artistas. Tenho em minha mente que a experiência de compor a música Passenger com o Tool marcou essa banda pra sempre, alterando a sua essência para algo muito mais disposto a inovações. Na contramão, a banda sempre esteve na navalha do sucesso comercial, coisa que nunca conseguiu repetir desde o ápice com a música Change, estouradíssima por causa de trilhas sonoras de filmes que fizeram sucesso mundialmente, como o Rainha dos Condenados.

O que é que esse Gore tem?

Dadas as cartas a mesa, é chagada a hora de me derreter mais uma vez por uma das minhas bandas preferidas. Eu poderia falar horas sobre a banda, afinal se tem uma coisa que eu amo é analisar e encontrar as texturas e camadas desse som, mas vou direto e reto a 2016 e ao disco Gore. Quem sabe eu faça uma discografia completa e comentada sobre eles em breve…

Sucessor do enigmático e sentimental Koi No Yokan, lançado em 2012, Gore é o mais recente lançamento do Deftones. Trazido oficialmente a luz no último dia 8 de abril, o que encontramos é definitivamente a experiência mais estranha, incomoda, fora do lugar de tudo aquilo que a banda já nos ofereceu até hoje. E isso é definitivamente a melhor coisa que poderia ter acontecido.

Sabe como é né? 2016 não tem sido mesmo dos anos mais normais da história da humanidade, e porque o disco novo da banda deveria ser não é? Se eu pudesse definir o Gore em uma palavra ela provavelmente seria lisérgico. Não é difícil de explicar o porquê. Tudo começa com os flamingos da capa, que trazem essa ideia psicodélica que vem crescendo na sonoridade da banda de maneira livre, totalmente solta. Em contraponto o por do sol gigantesco sem o sol aparente, encontrado no encarte e nas fotos da banda, também nos traz a ideia de uma luz que está desaparecendo e isso também é muito forte em Gore. Este disco é uma síntese dark, agressiva e – novamente a palavra – lisérgica. Porque tem muita viagem, muita atmosfera e muita profundidade nas diversas camadas do disco.

Faixa a faixa comentada

Prayers / Triangles

Tudo começa com o carro chefe de Gore, Prayers /Triangles, que, apesar da cara de single e refrão chiclete, traz um descompassamento e uma coisa psicodélica nas guitarras do Stephen Carpenter, que no mínimo está se sentindo chateado e desafiado por sair tanto do seu lugar comum conforme entrevistas que ele deu por aí. A melodia suave e ritmada dá lugar a tradicional porradaria da banda que desde este momento mostra como a mixagem suja, totalmente diferente do cristalino Koi No Yokan, e já pega os desavisados na curva, cheios de questionamentos.

Acid Hologram

Em seguida somos brutalmente surpreendidos pela suja e doentiamente sexy Acid Hologram, que leva a distorções de seus riffs mais básicos ao extremo. Por incrível que pareça, o baixo diferenciado do Sergio Vega finalmente se mostra como um dos comandantes do jogo, coisa que ainda não havia acontecido desde o momento em que ele assumiu o lugar do falecido Chi Cheng. Infelizmente na pós produção a bateria do Abe ficou muito abafada nessa faixa, em que a cozinha é a rainha. Uma influência muito grande de bandas de post metal está aqui, provavelmente pela experiência do Chino Moreno com os caras da tradicional e celebrada banda Isis. Para arrematar o cenário ultra profundo, Frank trabalha samples lindíssimos e sonhadores, que são fundamentais pra trazer a suavidade que deixa o som da banda tão maravilhosamente contraditório. Liricamente falando, Acid Hologram é a faixa que sintetiza conceitualmente o disco: uma bad trip mal resolvida daquelas… Certamente uma das minhas favoritas.

Doomed User

Já Doomed User tem riffs muito mais heavy metal e tem cara de ser uma tradicional música para incendiar a platéia. Novamente aqui a cozinha está pegando fogo, apesar de abafada pela mixagem. No entanto, quando você menos espera, tem um momento totalmente Godflesh que te tira do eixo. Pra uma música em que a letra desce o cacete na sociedade narcisista que se alimenta viciantemente pela internet, um pouquinho de desconforto sempre é bem vindo. Apesar desses ótimos momentos é uma das faixas mais regulares do cd e em quase todo o tempo parece com o trabalho anterior da banda.

Geometric Headdress

A musiquinha mais safada do disco de fato é a Geometric Headdress. Além da letra sacana que fala de uma figura feminina sexualmente livre e misteriosa que hipnotiza as pessoas – parece que ela está sempre no imaginário do Chino Moreno de formas diferentes e sempre conectada a ele de maneira mágica – a música não oferece nada de muito inédito e não tem momentos muito brilhantes. Claro, você deve considerar que é uma música muito acima do que os outros artistas fazem. Gosto muito do trabalho do Frank Delgado aqui, que coloca samples crescentes e tensos durante toda a música, dando uma atmosfera de emergência muito interessante.

Hearts/Wires

Aí meus amigos, algo completamente inesperado acontece. Esse evento, essa mágica, essa coisa absurda se chama Hearts/Wires. Estou ouvindo essa no repeat desde o momento em que a banda subiu no Youtube e simplesmente não consigo parar. A parte mais interessante é se trata de uma faixa diferente de tudo o que a banda fez até agora, inclusive das loucuras do Saturday Night Wrist (2006). É um fato: esta música é a síntese de tudo o que o Gore promete pro ouvinte. É um hino inusitado. É um choque. Uma hipnose. Uma cobra pronta pra dar um bote. Eu não consigo nem descrever o que eu sinto.

A melodia dessa música certamente é uma conjuração de alguma magia. O mais interessante é novamente o baixo que é usado praticamente como uma guitarra e é muito sensual, porém fora do lugar comum da banda. O Frank novamente consegue te embriagar só com os samples. Quando a música de fato começa é sorrateira, tensa e o Chino com sua voz vem aos pouco crescendo e de repente o refrão explode na sua cara. E a ponte pro último refrão? O Chino sobe o tom da voz e é incrivelmente viciante. Socorro, tô precisando de ajuda aqui. Chama o SAMU.

A letra também mostra a síntese do que é o disco: é pessimista, dark, ácida e jura de todo jeito que vai fazer você se libertar de todo o resto pra ser dela para sempre.

É definitivamente a faixa que precisamos e queremos do Deftones. A melhor do disco.

Pittura Infamante

Em seguida temos a Pittura Infamante que começa com um riff tão irritante que eu gostaria de dar um soco na cara de alguém. Quase sempre pulo ou volto pra Hearts/Wires. Entenda, não é uma música ruim, mas não dá pra fazer um julgamento justo depois da experiência que acontece na música anterior. Aqui nessa faixa o destaque mesmo é o vocal do Chino, muito bem trabalhado e meio que mandante da melodia. Tem uma coisa meio batalha medieval no ritmo dessa música, que acompanha a letra que fala de um ritual de oferendas aos deuses. No geral é ok, nada surpreendente. Segue o jogo.

Xenon

Xenon segue o ritmo tribal da anterior, mas é muito melhor. A letra definitivamente fala sobre algo relacionado a manipulação mental, transição entre vida e morte ou vingança. Até o momento é a mais difícil de entender. Nesta faixa o Abe brilha com as batidas totalmente ritualísticas e é nesse ponto que eu exergo que a banda está trilhando um caminho diferente não apenas no som, mas em seu imaginário. Uma faixa que me faz pensar mais sobre o amadurecimento da banda em sua ótica sobre a vida do que a música.

(L)MIRL

Fechando a trinca ritualística temos a incrível (L)MIRL que já começa enigmática pelo nome que aparentemente não tem sentido nenhum, mas na verdade é uma sigla de internet para “Let’s Meet in Real Life”. A maior surpresa dessa faixa é como ela referencia a banda Tool em seus momentos mais tensos – de fato uma homenagem – e se junta de maneira belíssima ao espírito mais tranquilo da banda. As guitarras do Steph aqui estão lindas e me lembrando novamente as bandas de post metal que tem aparecido por aí em seus momentos mais tranquilos, mas sem ser proposital. É uma música mais calma que fala sobre renascimento, sobre abandonar algo que faz mal. Será que o Chino tá falando daquela mulher de Geometric Headdress e de Doomed User? Me dá uma paz esquisita e me dá a sensação de fechar um pequeno ciclo dentro do disco. Será que esse disco inteiro é sobre essa persona? Acho que jamais saberemos, mas a gente desconfia que é uma beleza.

Gore

E então chegamos a faixa título do disco, Gore. É uma faixa raivosa, cheia de energia. É uma sala desarrumada, com tudo fora do lugar, depois de uma briga. Aqui o baixo e a guitarra estão casadas nos momentos de explosão de um jeito ultra agressivo, que contrasta sempre com os momentos de calmaria entre refrões, que nesta música são tensos. As faixas mais agressivas do disco ainda tem muito a identidade da banda de todos esses anos mas estão indo pra um lado mais extremo muito interessante. Gore é um ótimo exemplo.

Phantom Bride


Mas depois de uma porradas na cara é hora de sofrer. Ah Phantom Bride… Com participação do Jerry Cantrell ela é outra faixa muito diferente de tudo o que a banda já fez. Além das guitarras muito mais melódicas do guitarrista do Alice in Chains, a guitarra base é completamente rítmica e emocional ao mesmo tempo, provavelmente pela construção das notas. É uma música de sofrência, pra cantar de olhos fechados, lágrimas escorrendo e isqueiro lá no alto… Tem características de hino especialmente por causa do refrão que mexe com as entranhas. Impressionante. A letra ainda fala dessa figura feminina da noiva fantasma que se esconde, que desperdiça a sua vida com o nada… Acho que temos alguém sofrendo nesta banda de alguma maneira. E eu sofro junto, viu?

Rubicon

Para encerrar o disco um pouco de metalinguagem. Rubicon é uma faixa feita para conversar com a platéia, dessas que aquecem o público e encerram o show. Não é a mais poderosa do Deftones para essa finalidade – temos um Adrenaline inteirinho feito só para isso – mas com certeza levanta a platéia. A letra invoca isso em uma primeira impressão mas sinceramente acho que o significado dela continua conversando com todo o conceito de distância, ilusão e decepção das músicas anteriores. A música tem essa característica tensa de todo o cd em seu DNA e se desenvolve muito bem mas, infelizmente, acaba rápido demais, deixando um vácuo inominável no fim do disco. Essa é uma das coisas que me incomoda em Gore: toda essa viagem termina com um sopetão, como se tirassem o doce da minha boca sem eu poder terminar de comê-lo. Queria mais.

A viagem vale a pena?

Como fã eu sou muito suspeita, já que é um disco difícil de digerir. Ainda não gosto de muitas músicas, mas das que eu gosto eu gosto demais. É um disco para amar ou odiar, ainda mais com o fato de que a mixagem esconde um pouco uma das melhores partes da banda, que é a bateria e o baixo. Pessoas podem estranhar demais o que vão encontrar pela frente e definitivamente é necessário dar mais de uma chance para esse trabalho e absorver o que ele merece. Não acho que é o melhor disco do Deftones, apesar de eu mesma não saber definir se meu preferido é o White Pony, o Self Titled ou o Koi No Yokan.

Mas o fato é: Deftones não é uma banda de meios termos. Gore é a síntese disso. A única coisa que eu posso te dizer é que é impossível sair indiferente dessa experiência musical.

Comentários


1 thought on “Gore é o disco mais incomodo do Deftones e é por isso que você tem que ouvir”

  • Achei aqui sua resenha sem querer, e está muito boa. Desde que saiu o albúm não porcurei ler sobre mensagens ou intensões das músicas, mas muita coisa que refleti enquanto escutava está descrito aqui! Quem é fã do Deftones realmente vai entender toda essa psicodelia que eles produzeram. Ouvi 3 ou 4 vezes para entender, mas já passei de 30 execuções do Gore. Deftones continua em uma trajetória musical digna e competente… 🙂

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