As 6 críticas sociais pesadas que você não conseguiu enxergar em Mad Max — A Estrada da Fúria

As 6 críticas sociais pesadas que você não conseguiu enxergar em Mad Max — A Estrada da Fúria

Em tempos de um cinema superficial e fácil de mastigar, George Miller dá uma aula de narrativa e provocação em um dos maiores blockbusters de ação todos os tempos.

ATENÇÃO: ESTE POST É SÓ DE SPOILERS DO FILME. NÃO SIGA A LEITURA SE VOCÊ NÃO ASSISTIU AINDA. EU AVISEI.

UPDATE 1: Pessoal, eu nem sei como agradecer. Bati 50mil visualizações (atualizado dia 25/05/2015) aqui no Medium.com em um texto completamente despretensioso. Escrevi quase imediatamente após assistir ao filme e não estava esperando. Agradeço muito as recomendações, comentários e compartilhamentos. Muito amor a todos vocês.

UPDATE 2: O título está causando uma certa polêmica por aí. Peço por favor para vocês lerem com atenção a introdução do texto, em especial o segundo e o terceiro parágrafo, e vocês vão entender o porquê ele se chama assim, ok? Obrigada.


Desde que o filme de George Miller começou a ser exibido, um blockbusterliteralmente explosivo de 100 milhões de dólares, as críticas estão ovacionando o filme em quase 100% de aprovação. Algo impressionante e que não me lembro de ter visto recentemente, talvez apenas O Cavaleiro das Trevas em 2008 tenha conseguido se aproximar dessa proeza. Até mesmo no Festival de Cannes o filme foi aplaudido três vezes de pé, sem falar na segunda sessão em que assisti o filme aqui no cinema da cidade em que a platéia também ovacionou o filme ao fim da exibição.

Ao mesmo tempo tenho visto críticas duras ao filme, em que posso dividir em duas categorias: as viúvas de Mad Max dos anos 80, que não aceitam que a franquia tenha seguido sem o Mel Gibson e que o personagem não seja o protagonista extremo desta história; a outra categoria é de pessoas que dizem que o filme é completamente vazio, sem história, sem significado, não passa de um monte de explosões sem lógica e é cheio de violência.

Visando principalmente esse segundo tipo de hater, que claramente não sacou o filme por pura falta de referência e preguiça de pensar, eu me dei ao trabalho de desenhar algumas coisas pra ajudar essas pessoas entenderem como um filme com tão pouco tempo de desenvolvimento de relação entre personagens consegue ser completamente poderoso em sua mensagem. Tem coisas incríveis que são desconstruídas sem sequer existir um diálogo e infelizmente muita gente não conseguiu olhar além da superfície.

Preparados para os socos na cara? Ok.

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Destruição do meio ambiente com propósito de dominação

Como podemos ser prejudicados por interesses de pessoas e indústrias poderosas?

Não deveria ser tão difícil entender, aliás deveria ser bem óbvio. As ações do ser humano e sua ambição são completamente reais aqui do lado de fora. Uma das premissas básicas de Mad Max desde o primeiro filme, em 1979, é trazer a reflexão de como seria se guerras nucleares e utilização inadequada de substâncias tóxicas afetassem a humanidade e como seria sobreviver ao fim do mundo sem itens básicos como a gasolina e a água.

Durante o enredo de A Estrada da Fúria, existe uma pergunta muito emblemática sobre este assunto: Quem destruiu o mundo? As responsáveis por esta pergunta são as maravilhosas mulheres deste filme, Furiosa e as meninas do harém de Immortan Joe, que questionam a desgraça em que estão e quem ganhou com isso. Melhor do que apenas questionar, elas decidem não aceitar o sistema e fazem algo para melhorar suas vidas e saírem do controle doentio do ditador psicopata.

Immortan Joe é um cara que se beneficiou completamente da desgraça do mundo, se não foi ele mesmo que a promoveu, construindo seu império com facilidade por ter acesso as tecnologias de busca de água potável (Aqua Cola) e ferramentas agrícolas para manter plantações saudáveis em solos estéreis.

Apesar de estar ambientada em um mundo pós apocalíptico, a reflexão de como as catástrofes naturais e de guerras são utilizadas em benefício próprio das indústrias e da minoria rica da nossa realidade está claramente retratada na película.

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A desconstrução do lobo solitário que salva a mocinha no final

Por que o cinema ainda insistia em clichês se existem características humanas reais que podem ser exploradas?

Max Rockatansky era o típico herói machão dos anos 80 e completamente celebrado por isso. Apesar de ter perdido a sua família e ter sofrido um bocado, ele era o guerreiro auto suficiente que poderia resolver todas as suas questões sozinho. Este padrão, muito comum nos filmes de ação, sempre criou uma grande pressão social por ser um modelo perfeito de masculinidade a ser seguido e desejado.

Vejam que maravilhoso é A Estrada da Fúria nesse sentido: Max não está sozinho neste filme e nem é capaz de resolver tudo ao mesmo tempo. Ele faz uma dupla incrível com a Imperatriz Furiosa, tanto na resolução de problemas quanto na hora da pancadaria. Ambos salvam suas vidas em pé de igualdade e tem seus talentos de sobrevivência unidos para o mesmo propósito. O melhor de tudo é que se trata de uma parceria sem tensão sexual e sim uma parceria de missão, sem segundas intenções.

Este tabu no cinema popular é um desafio a ser superado ainda em 2015 e George Miller dá um tapa na cara com luva de pelica nos espectadores.

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A coisificação de humanos em ferramentas do sistema

Até que ponto somos manipulados e forçados a servir interesses alheios?

Quando Max é capturado no deserto, logo no início do filme, a desumanização é brutal: cabelo é raspado para ser reaproveitado, as costas são tatuadas para identificação de características físicas e por fim o símbolo do reinado do Immortan Joe é queimado em sua pele como se ele fosse um novo boi em seu gado. Logo deduziram que ele servia para ser uma bolsa de sangue para War Boys feridos por ter um tipo raro (!!!).

A relação de Max enquanto “Bolsa de Sangue” e Nux, o “kami-crazy” mais importante do filme, ilustra bem como as coisas acontecem na vida real: um civil é completamente rendido e explorado através de seus bens mais valiosos para alimentar um sistema violento de guerra, comandado por gente que tem interesses que não visam o bem estar coletivo. Genial.

Existem muitos exemplos além desse, como as mulheres que produzem o leite materno como um alimento, sendo ordenhadas como vacas. Um outro tipo de “coisificação” de seres humanos também se encaixa no próximo item da nossa lista.

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Escravização de mulheres com fins reprodutivos e meramente sexuais

Qual é a importância que nós estamos dando para o problema aqui no mundo real?

Provavelmente a crítica mais clara e uma das mais incômodas do filme. Desde os trailers nós já sabíamos que Immortan Joe escravizava mulheres e as considerava “sua propriedade”. O que é completamente inesperado pra muita gente em Mad Max: A Estrada da Fúria é que foram as próprias mulheres que resolveram o problema de não serem máquinas de reprodução do tirano. “Nossos filhos não serão filhos da guerra.”

A primeira coisa que se passou na minha cabeça durante o filme é como este tema é atual. É só comparar com a realidade de países com alto índice religioso e com células terroristas como o Boko Haram, que faz horrores com as mulheres que eles sequestram. Se quiser saber mais sobre o que estou falando, clique aqui neste link. O problema é real.

Isso me faz pensar que tipo de provação a Imperatriz Furiosa teve que passar para provar seu valor de guerreira e líder em um sistema abertamente patriarcal. Durante um de seus diálogos ela conta que foi sequestrada ainda criança de sua terra natal, o que deixa totalmente em livre interpretação que ela também foi escrava do Immortan Joe, ainda mais considerando a sua beleza. Ela não tem um pedaço de um braço, provavelmente lutou demais para ter o direito de dirigir aquele caminhão. Furiosa também foi privada de sua própria identidade ao raspar o cabelo e se tornar mais parecida a estética masculina dos War Boys, já que suas conterrâneas do Vale Verde tem o cabelo bem longo.

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Manipulação mental de jovens para o sacrifício em nome de um deus

Até quando vão permitir que jovens em situação vulnerável sejam manipulados para fins escusos?

Essa certamente é a minha parte preferida, afinal de contas é uma crítica descarada as lideranças terroristas que fazem lavagem cerebral em jovens através da religião. Para não me alongar muito na explicação, veja essa matéria investigativa de como jovens europeus são recrutados pelo Estado Islâmico e como isso é muito mais comum do que a gente imagina.
No filme, os jovens de “meia-vida” chamados War Boys acreditam que o Valhalla é o destino de todos aqueles que morrerem para a glória de Immortan Joe. Todo o exército de garotos tem coisas muito características de uma tropa da vida real, como gritos de guerra, estética padronizada, uma organizada estrutura de funções. A diferença é que eles não tem absolutamente nada a perder, já que tem tumores em seus corpos se desenvolvendo por causa do meio ambiente tóxico que podem matá-los em pouco tempo.

Nux, o “kami-crazy” que se desgarra do exército por vergonha em ter falhado três vezes em sua missão na frente de seu soberano, nos oferece a melhor visão da vulnerabilidade destes meninos, cedendo rapidamente a uma oferta de carinho da ruivinha Capable e revelando que é ainda apenas um jovem inocente ao desenhar carinhas e nomear os seus tumores do pescoço.

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A aprovação no Teste de Bechdel

Será A Estrada da Fúria um game changer para a representatividade feminina na cultura pop?

Você conhece o Teste de Bechdel? Clique aqui para saber mais detalhes sobre o conceito dele. Qualquer história ficcional para ser aprovada neste teste deve responder “sim” as três questões abaixo:
  1. Tem pelo menos duas mulheres. — Sim, na verdade o filme tem no mínimo 12.
  2. Elas conversam uma com a outra? — Sim, inclusive com essas 12 mulheres na mesma sequência;
  3. Elas conversam sobre alguma coisa que não seja um homem? — Sim, estão no território das Vuvalinis discutindo o destino do Vale Verde .

Apesar do teste não assegurar que os filmes aprovados por ele não são ruins, é um ponto de partida válido para os retratos das mulheres deste filme: espíritos livres e guerreiros. Também é delicioso assistir o poder de batalha que elas tem e da ousadia de derrubar um império opressor mesmo em tão poucas pessoas, incluindo homens que as apoiaram na causa não apenas pelo fato de serem mulheres, mas por ser algo positivo para a coletividade.

Não vou me alongar muito neste item pois ele está em ampla discussão pela internet. Aparentemente algo tão natural como mulheres não terem uma existência falocêntrica e mostrarem independência e empoderamento andou incomodando certas pessoas aí. A única coisa que eu posso dizer é: CHORA MAIS.

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Liderança fraca e alegórica que mantém controle através do terror

Quem deve ter medo de verdade? Davi ou Golias?

Muitas pessoas ficaram punhetando o fato do Immortan Joe ter morrido tão facilmente com a máscara enrolada na roda do carro. Não importa o funcionamento do negócio, mas importa o que isso significa: o imortal morreu de uma maneira bem estúpida. Todo o mito se foi.

Aliás, é muito fantástica a representação de liderança do império do cara. Ele, um senhor com muitos problemas de saúde devido a exposição ao meio ambiente tóxico, tem um filho monstrão descerebrado chamado Rictus Erectus, que consegue apenas repetir palavras e espancar coisas, e outro filho chamado Corpus Colossus, que nasceu com sérias deformidades mas aparentemente é o mais inteligente e estrategista da família. Para auxilia-lo em seus domínios ele tem o chefe do “financeiro” e de provisões, The People Eater, conhecido por comer pessoas vivas (olhem quanta ironia maravilhosa aqui), e o chefe das provisões de batalha, The Bullet Farmer, que lidera uma tropa em um híbrido de tanque de guerra com um carro normal e se auto denomina a balança da justiça.

Todos são distanciados de figuras humanas e representam as forças de uma estrutura de poder. Todo o exército de War Boys é excessivamente carregado de ostentação, afinal de contas como não ostentar um guerreiro que tem uma guitarra flamejante? Mas tirando toda a demonstração de poder bélico o que restava ao grande líder? Nada. O líder estava morto faz tempo em seu próprio reino quando uma conspiração de quem ele menos esperava estava acontecendo nas suas costas.

A grande lição aqui é que nenhuma liderança opressora é invencível. A maioria está no povo, que tem o poder de mudar o que quiser se estiver em busca do mesmo objetivo e unir forças de maneira organizada e sem piedade nenhuma.


Estão aqui as razões para Mad Max 4 ter uma história incrível. Apesar de longo, acho que consegui colocar pra fora o porquê deste ser um dos filmes favoritos da minha vida.

Concorda comigo? Discorda? Deixa a sua opinião aí embaixo, clique em “write a response” e escreva ☺

Texto publicado originalmente em medium.com/@nebelin3

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